Introdução

Sair do regime do Simples Nacional representa um ponto de inflexão para muitas Pequenas e Médias Empresas (PMEs). O aumento da carga tributária, a obrigatoriedade de uma contabilidade mais complexa e o crescimento dos custos operacionais podem colocar em xeque a sustentabilidade financeira de negócios que antes operavam com margem controlada.

Nesse cenário, a recuperação de crédito deixa de ser uma prática emergencial e se torna uma estratégia recorrente de sobrevivência. Ao longo deste artigo, você entenderá como sua PME pode estruturar políticas de cobrança eficazes, mitigar riscos de inadimplência e, principalmente, utilizar dados, processos jurídicos e inteligência investigativa para recuperar valores e evitar novos prejuízos.

1. O que muda quando uma PME sai do Simples Nacional?

O Simples Nacional oferece um regime de apuração unificado, com carga tributária reduzida e obrigações acessórias simplificadas. Ao ultrapassar o limite de receita bruta anual (atualmente R$ 4,8 milhões), a empresa obrigatoriamente migra para o Lucro Presumido ou Lucro Real, e a mudança é brusca.

1.1. Aumento da carga tributária

Dependendo do setor e do porte, os tributos podem subir entre 20% e 45%. A incidência separada de impostos como PIS, COFINS, IRPJ e CSLL, além do ICMS/ISS, gera complexidade contábil e onera a operação.

1.2. Perda de competitividade

Empresas concorrentes que ainda estão no Simples conseguem oferecer preços mais baixos. Isso pressiona a margem de lucro das que migraram, especialmente no curto prazo.

1.3. Aumento do risco de inadimplência

Sem uma política de cobrança ativa, o desencaixe entre faturamento e entrada real em caixa torna-se frequente. A empresa começa a “vender fiado” sem critério, confiando em clientes que podem atrasar ou nunca pagar.

2. Por que a recuperação de crédito é essencial nesse cenário?

De acordo com o Indicador Serasa de Inadimplência das Empresas, o número de PMEs negativadas atingiu recordes em 2024. Esse fenômeno tem como pano de fundo o aumento do custo do dinheiro, o fim de auxílios governamentais e a informalização de parte da economia.

Para empresas que saíram do Simples Nacional, a recuperação de crédito é uma ferramenta vital para restabelecer a liquidez e preservar o capital de giro. Mais do que cobrar, trata-se de entender quem são seus devedores, como se comportam, quais ativos possuem e quais mecanismos podem ser usados para trazê-los à mesa de negociação — ou à responsabilização judicial.

2.1. O que é recuperação de crédito?

É o conjunto de práticas administrativas, jurídicas e investigativas voltadas a reaver valores em aberto com base em evidências, negociação e eventual judicialização. Não se trata apenas de enviar boletos ou mensagens de cobrança — é uma disciplina estratégica.

2.2. Quando aplicar?

  • Quando há reincidência de atraso nos pagamentos
  • Quando clientes mudam de endereço ou CNPJ sem aviso
  • Quando valores em aberto passam de 5% do faturamento
  • Quando há sinais de fraude, má-fé ou desvio de ativos

3. Diagnóstico: entendendo sua carteira de inadimplência

O primeiro passo em uma recuperação de crédito eficaz é o diagnóstico profundo da carteira de contas a receber. Muitas empresas falham nessa etapa por falta de organização de dados ou visão estratégica.

3.1. Segmentação dos devedores

Classifique os inadimplentes com base em critérios objetivos:

  • Tempo de atraso: até 30, 60, 90, 180 ou mais de 365 dias
  • Valor da dívida: até R$ 5 mil, até R$ 20 mil, acima de R$ 50 mil
  • Risco de crédito: com ou sem histórico de pagamento
  • Potencial de recuperação: com base em dados patrimoniais e reputacionais

3.2. Ferramentas para diagnóstico

Utilize ferramentas como:

  • Power BI ou Google Data Studio para dashboards de inadimplência
  • Consulta em birôs de crédito (Serasa, Boa Vista, Quod)
  • CRMs integrados com status de cobrança
  • Pesquisa OSINT para casos sensíveis (Open-Source Intelligence)